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Um dia de aula

Aqueles que costumam notar pontos de fuga na imensidão sabem o quanto é desolador caminhar por um corredor longo, mesmo que largo. Nós, que costumamos encarar o horizonte como uma águia encara sua saciedade, nos aterrorizamos ao sermos acorrentezados junto de dezenas de outros seixos sem direção própria rumo ao fim daquele cubo que comprimia-se quanto mais longe chegávamos.

Desaguávamos no lago mais desolador do meu dia. Sentado no penúltimo banco da coluna do meio, onde a única coisa que se modificava era o conteúdo do que costumam chamar de “quadro negro”.

Duzentos e quarenta minutos de infindável inércia. O único movimento que fazíamos eventualmente era balançar a cabeça para cima e para baixo, como um dispositivo automático ativado pelo comando de voz “entenderam?”.

É imensamente penoso para pessoas como nós disfarçar inércia. Para pessoas sensíveis ao que acontece internamente em seus corpos. Nosso sangue percorre cada tecido de nosso corpo no ritmo mais íntimo de cada um; é um compasso marcado pela nossa individualidade nata, a batida de nosso coração completamente único, completamente nosso. E esse órgão-chefe da orquestra lidera todo a movimentação interna com uma frase por muitos já esquecida: “nunca deixe o movimento cessar”.

Minha alma sabe disso e uma caneta começa a ser girada entre meus dedos. Uma brincadeira simples, portátil. A regra do jogo é nunca usar o polegar, a não ser para alguma técnica específica como a “volta pelo dedão”, ou “thumb around”, para aqueles que gostam nomear tudo em inglês.

À medida que meus dedos aquecem-se, a velocidade dos giros aumenta e começo a sentir o fluxo. Meu pulso se liberta dos movimentos rígidos e lança-se em uma dança que impulsiona e dá ritmo ao girar da caneta. O movimento transforma-se em um voo maripôsico enquanto a tinta flui finalmente livre por aquelas artérias normalmente frias. Começo a sorrir, não por exibicionismo, mas por admiração àquele espetáculo que era produzido através de meu corpo. Não era eu quem fazia aquilo devido à minha habilidade, mas era devido à minha habilidade que eu podia servir de mediador das belezas do nosso universo. É por isso que não sou dono do movimento, mas é através de mim que ele se manifesta. Por isso não há razão para orgulho, ou vergonha, não há ciúmes ou insegurança. E lá estou eu, no meio da sala, maravilhado por aquilo, mas sendo o único capaz de perceber essas maravilhas. Entre trinta pessoas, eu sou a única a tentar desamarrar-se dos nós do superego.

Sigo girando até sentir fogo dentro de meus dedos, até sentir cansaço dentro de meus dedos, até sentir tudo, até a caneta voando para longe de meus dedos.

A caneta desliza pelo pouco de vento que havia ali. Meus músculos se tensionam como se eu estivesse esperando o grand finale de uma grande ópera.

A sinfonia do movimento contrasta com a muda e solitária ária da inércia. A caneta cai no chão e, é claro, nem é para o seu local de aterrisagem que o coral de olhares se direciona, mas para mim, uma ópera visual de desaprovação cujo único e derradeiro objetivo é me envergonhar até que toda e qualquer atitude livre se encolha em meu âmago e tudo o que sobre na superfície de meu corpo seja ser mais uma cópia de um modelo humano ineficaz.

E sempre foi assim. Aquele beholder devorador à minha frente me enoja. Todos os dias é a mesma coisa. São como zumbis que alimentam-se daquilo que um dia foram, daquilo que, no fundo, ainda são.

Eu me levanto lentamente com o espírito de alguém que estivesse recebendo um castigo, e o era. Um castigo moral, uma humilhação diária; eu estou sendo, dia após dia, penosamente, submetido a um condicionamento behaviorista onde a liberdade de movimento é tida como subversão à ordem, sem nem mesmo uma reflexão crítica sobre a real existência de um problema intrínseco à minha ação. Todos esse alunos também sofreram os mesmos olhares de “isso não pode” e, ao invés de EXPLODIREM SEUS PULMÕES COM GRITOS DE BASTA!, eles reproduzem a mesma interdição! Tornaram-se policiais contra a subversão à inércia, protegendo à todo custo padrões mecânicos de descriatividade. Será que alguma vez, uma única vez ao menos, eles se oporão à condição auto-imposta de destro ou canhoto? Será que tentarão escovar os dentes com a mão esquerda enquanto caminham agachados pela sala? TODOS OS DIAS fazem a mesma rotina corporal como se houvesse apenas uma única maneira de sair da cama, como se houvesse apenas um modo de ir até o banheiro, como se houvesse apenas um modo de sentar ao assistir a merda da televisão!

Flexiono meu espírito e meus joelhos para alcançar a caneta no chão. Todos os olhares mirados em mim. Me curvo e olho para frente, para observar, em um ângulo ascendente, meu professor, superior, sentado em seu trono de autoridade, balançando seu crânio como quem diz “bom garoto” antes de cafunar os pelos de um cão condicionadamente obediente.

Me levanto lentamente. Minha visão atravessa a de meu opressor. Meu olhar, como o de um leão que se revolta contra seu dono, afunda e pressiona meu professor contra o quadro negro.

Vejo aquelas faces sem vida à minha volta e a pena me abocanha. Ainda há, certamente, escondida no fundo da alma de cada um deles, em uma floresta de eterno luar, adormecida sob o movimento do silêncio mais puro, uma criança de criatividade infindável, a manifestação mais real do que é ser humano.

Meu professor tenta retomar sua postura de autoridade e me ordena sentar em minha cadeira, abrir o livro e prestar atenção na matéria. Fico impressionado com o grande número de ações pelas quais ele quer que eu me movimente, mas não me satisfaço e pergunto a ele a razão de termos cérebros. Ele nada responde e eu sigo com meu discurso.

“Não desenvolvemos cérebro para decorar nomes de cidade, tenho certeza. Nós temos cérebros para uma única razão apenas, produzir movimento! Tudo é movimento: falamos através de contrações musculares, enxergamos através de nervos ópticos, até o nosso próprio pensar é feito através de transformações sinápticas. O objetivo de toda a ciência é melhorar nossos padrões de movimento. Geografia, biologia, música, português… a razão é transformar positivamente nossa relação com o ambiente que nos cerca, e essa relação se produz através da única coisa que temos e que estamos perdendo de pouco em pouco: movimento. Movimento é a função mais importante, a única importante, de nosso cérebro, e vocês tentam fazer com que acreditemos que essas matérias são mais importantes do que isso!?”

“Tenta tirar um animal de seu habitat natural e colocá-lo em um zoológico. Todas suas funções naturais vão se atrofiar. Ele terá um físico muito longe do esperado, não será tão inteligente quanto antes, sofrerá de depressão e diversas outras doenças não encontradas na selva. Um leão não precisa fazer exercício para “estar em forma”, por que nós precisamos? Nós estamos nos isolando em zoológicos humanos. Sofremos as mesmas doenças que animais sofrem quando fora de seu ambiente natural. Eu apenas sigo o que a natureza me mostra, todo esse mar de infinitas possibilidades de movimentação e tu ainda dizes que EU é que sou a exceção? É como aquela frase que diz que é possível tirar o macaco de dentro da selva, mas que ninguém nunca será capaz de tirar a selva de dentro do macaco”.

Todos começam a me olhar, como que recuperados de um anestésico fortíssimo.

“E vocês que estão aí me olhando, o que vocês mais gostariam de fazer agora? O que o corpo de vocês clama por executar? O que, sem problemas de depressão, sem deficiências sexuais, sem pressão social, sem nada, o que vocês, verdadeiramente, gostariam de fazer agora?”.

“Eu gostaria de dançar” — Respondeu a menina tímida da primeira fileira, seguido de vários outros que expressavam seu desejo por dançar ballet, semba, dubstep, jazz…

“Eu gostaria de lutar capoeira”, disse o gordinho da classe ao lado, “e eu estaria fazendo algum kata”, respondeu outro.

“Eu cantaria”, “eu também”, “há anos eu penso em fazer acrobacias por cima das classes”, “eu gostaria de ficar andando de cabeça para baixo”, “eu quero imitar um dinossauro”, “tenho vontade de tentar malabarismo”, “eu achava legal brincar de estrelinha com minhas amigas”, “tenho saudade do tempo em que eu brincava de contorcionismo”, “gostaria de…”…

E o que impede vocês de, agora, nesse momento que é só de vocês, fazerem tudo isso? Não falo de nível de habilidade, mas falo do prazer de tentar, de se movimentar. NÃO HÁ NADA que impeça vocês de se movimentarem por aqui, e nem há motivo para tal. Há apenas uma convenção de que isso seria desconfortável para uma entidade que não existe. O “bem-estar social” nunca vai existir sem a liberdade de movimento, sem o prazer de escolher por qual caminho seguir, como vamos sair da cama, como vamos descer as escadas. As possibilidades são infinitas, não limitem elas ao que é mais útil ou econômico! Explorem-nas, desconstruam-nas, mas VIVAM! Expressem o criativo e verdadeiro vocês!

E então, como que por mágica, todos entendem, no fundo de seus corações, o que eu estou dizendo. Todos os alunos se levantam e começam a explorar livremente a sala ao nosso redor. De repente, as paredes que nos oprimiam se tornam o objeto de nossa diversão. As classes e cadeiras viram nossos brinquedos, alguns saem pelas janelas, outros flutuam pelos corredores, e, pela primeira vez, vi felicidade estampada na alma de cada um daqueles símios.

Momentos indescritíveis de simples manifestação do potencial criativo do ser humano. Não há ego. Ninguém faz nada além de explorar o universo com a única ferramenta que lhe foi dada: seu próprio corpo.

Uma menina que estava imitando os passos de dança que vira em seus sonhos pergunta para nosso professor se ele não tinha vontade de fazer algo quando criança, se ele não tinha desejo de correr sobre a grama e saltar por cada buraco que encontrasse. Ela pergunta o que o motivava em manter-se vivo quando levantava pelas manhãs e o que ele sentia quando brincava de pega-pega com seus amigos de infância.

Todos nós paramos curiosos para ouvir falar a verdadeira voz de nosso professor, pela primeira vez. E pela primeira vez, todos nós estamos interessados.

O seu olhar treme diante da pergunta. Suas sombrancelhas timidamente se contraem, eu sinto uma lágrima pingar de um rio praticamente seco em sua alma. Seus olhos buscam recordações, seu sangue busca vida, mas as camadas tornaram-se muito espessas após tantos anos de amargura. “Vocês me perguntam o que me motivava ao correr…”, ele desviou o olhar, envergonhado, “eu não me lembro”, respondeu, “eu realmente não me lembro”.

Um salto, só isso

um salto
só isso
comum como um “oi”

um salto
eu sei
um vum! e já foi

mas salto sincero
sem rima e sem cor

um salto-verdade
sem ter nem amor

salto desvestido
de suas largas calças

e não travestido
em full HD

um salto sem ego
sem medo ou querer

um salto sincero
quão raro é fazer

Alma descalça

Sol no solo
Solo e sola
Som e alma
suor e chão

a mente esfolo
e o corpo mola
nessa calma
é emoção

Sem demora
sem peso, sem rumo
correndo, sem pressa
sem dor, sem cansar

a alma acalora
com passo ladino
leve e dançarino
puro como ar

finalmente livre
através de meus pés
ouço a terra e voarei aos céus

Vida e tristeza

Hoje me fizeste chorar, velho amigo
mas chorei por ti

Eu queria poder te dar
o sopro de vida que respiro
quando plano pelo ar sereno
Eu queria poder compartilhar
a plenitude em que resido quando,
lá em cima, vejo pássaros iguais a mim
voando, em paz
Eu queria te fazer entender
que a felicidade está adormecida,
anestesiada pela nossa inércia
Eu queria te conduzir à transcendência
mas um voo só é voo
quando feito com as próprias asas

Hoje me falaste de teus sonhos atuais
e me fizeste chorar, velho amigo
mas chorei por ti

Davibellismo

  • Qualquer lugar onde treinamos se torna um local de treino, e em todo local de treino deve-se dar espaço para que os traceurs corram.
  • Transeuntes não podem se queixar quando dividem o mesmo espaço com os traceurs, desde que este lugar esteja sendo usado para Parkour.
  • Todo e qualquer espaço, público e privado, deve permitir obrigatoriamente teus treinos, mesmo que atrapalhe a função primeira deste espaço.
  • Uma vez traceur, é estritamente proibido deixar de praticar, mesmo que seja para praticar outra atividade física.
  • É permitido dizer não ter tempo para treinar e, por isso, ficar sem treinar durante meses ou anos, mas parar de praticar por qualquer outro motivo é considerado desistência, e o traceur será visto com maus olhos por todos os outros.
  • O uso de bermudas é tido como ridículo, não importa o calor que faça. Traceurs devem treinar sempre com calças de abrigo, mesmo abaixo de um calor de 40°.
  • Traceurs têm o direito de humilhar fazendo planches qualquer atleta que esteja fazendo barras, pois outros esportes são inferiores ao parkour em todos os aspectos.
  • É permitido sujar qualquer parede, sendo ela pública ou privada, desde que estejas treinando Parkour.
  • Uma vez local de treino, um muro passa a ser propriedade do traceur, portanto, é estritamente proibido que outras pessoas sujem, desenhem ou sentem-se neste muro.
  • Ninguém pode culpar um traceur por danos à postes, corrimãos, marquises ou paredes, pois foram apenas artifícios para treino, e um traceur é isento de qualquer responsabilidade com aquilo que ele utiliza.
  • Nós estamos livres para invadir casas ou terrenos privados, mesmo sendo proibido por lei, desde que seja para treinos, pois, afinal, não estamos fazendo mal à ninguém.
  • Todo traceur que não entender a ironia do texto acima, deve repensar a maneira com que age, a fim de não agregar seus próprios valores ao Parkour, nem prejudicar sua imagem e a de seus praticantes.

Pelo que pisam meus pés

Pisco; pico novo
Pista, placa, parque
Parto, piro, movo
Prestes pirepaque

Pega-pega rende                                         Pé para o passo
Poça, poro pinga                                                  Passo passa leve
Parapeito prende                                                         Piso ponta e faço
Pouso, pulso ginga                                                             Impulso, pulo breve

Pauso, pairo puro                                                            Apresso, pasmo, peno
Plano pego e piso                                                              Podre, pendo tonto
Perna passa muro                                                       Posso e pulo pleno
Puxo e passo liso                                              Próprio, paro pronto

Pulsa o peito probo
Psique se desfaz
Puro e pleno, tombo
Pólo a pólo: paz.

Dúvida

“Salto ou não salto?”

O sol está terminando seu salto diário enquanto o traceur, imóvel, decide se faz o mesmo. Ele passa a mão na sola dos kalenjis diversas vezes, a fim de certificar-se novamente que definitivamente não há nem um único grão de areia que possa fazê-lo escorregar. As pessoas que passam pela rua acham estranho: um homem em cima de um muro de 3m de altura, alisando as solas dos tênis com as próprias mãos enquanto olha fixamente com uma cara de mau para um pilar à frente.

“Salto ou não salto? Inúmeras vezes subi até aqui, inúmeras vezes parei aqui em cima, ajustando meu corpo a esse ar. Inúmeras vezes imaginei o salto, mas isso nunca me satisfez. Eu quero saltar, enxergar o solo a partir daquele ângulo incomum. É desse ângulo que o traceur vê a cidade, planando pelas correntes de ar, de passagem por essa vida, mas revelando aos transeuntes a possibilidade da ascenção aérea. Estamos a um passo da liberdade plena, de retornarmos a origem através da exteriorização daqueles movimentos que, desde pequenos, somos ensinados a esconder. Vemos a cidade a partir do ângulo dos sonhos das crianças, que nos enxergam como deuses, libertos de qualquer amarra. Hoje esse salto não parece tão grande, talvez seja meu espírito que esteja maior. Quando o espírito cresce, não há distância grande o bastante para impedir seu voo.”

O traceur está quase pronto para saltar. Ele fixa os olhos no pilar à frente e entra em quietude, mas algo em seu coração surge, impedindo seu salto. A sua mente reativa-se e em seu abdomem uma ansiedade sem fim emerge: ele sente medo.

“Por que… por que esse medo incompreensível? Por que esse medo surgiu logo agora, estando eu prestes a saltar? Um medo irracional, pois essa distância, embora seja grande, sou capaz de percorrer em uma precisão. Meu coração disparou, e, agora, olhando novamente para o pilar, parece que a distância que nos separa aumentou. Não importa o quanto eu reafirme que continuo à mesma distância, meus olhos não acreditam. Tu já fez precisões desse tamanho centenas de vezes, por que tu tá com medo? Salta logo!”

O traceur agacha-se no muro, com os olhos firmes no caminho do salto, mas seu olhar está voltado para dentro, procurando o que motiva seu medo.

“Antes eu tivera mais medo desse salto, então repeti precisões similares centenas de vezes, sem errar nem uma única vez. Eu fiz o meu corpo ter capacidade plena de um salto desses e confiança em executá-lo. Treinei sob sol e chuva, preguiça e motivação, para que, hoje, eu pudesse completar esse salto facilmente. O que ainda falta? “

Interrompendo seus pensamentos, ele escuta um grupo de moças da sua idade se aproximarem. Ele percebe ser o assunto em pauta. Na tentativa de exibir-se para elas, o traceur levanta-se e inclina-se para frente, quase pronto para saltar.

“Não, não… não posso saltar assim. Não é a exibição que deve ser meu combustível. Embora isso já tenha funcionado em outras ocasiões, de nada valem as conquistas se elas forem baseadas em motivações erradas. O que eu ganho inflando o meu ego? O parkour não é uma atividade de exibição, e, pulando assim, eu só reforçaria esse pensamento equívoco. Eu não devo fazer nada que eu não faria treinando sozinho, nem deixar de fazer nada apenas por que há pessoas me olhando. Mas se isso não vai ser meu combustível, o que mais poderá sê-lo?”

E então, o sol esconde-se atrás das edificações e a noite se faz presente. O traceur não percebe que, mesmo estando agachado, está cada vez mais pronto para o verdadeiro salto.

“Metas, objetivos. Ser capaz de saltar até ali? Não me parece ser um objetivo muito bom. Mostrar aos outros que sou capaz, tão pouco. Eu não estou aqui para ser melhor do que ninguém. Ser capaz de controlar a mim mesmo, ser mestre de meu corpo e mente, esse sim parece ser um objetivo pelo qual vale a pena me esforçar. Então de nada vale o salto se eu não der atenção a esses fatores, se eu não estiver me aprimorando tanto física quanto mentalmente. É por isso que não importa o nível físico do traceur, porque aqui não buscamos a exibição. O percurso percorrido está na mente, na alma. A quietude que precede o salto deve ser mantida durante todo ele, estando eu consciente durante todo o tempo do que estou fazendo, me tornando, com isso, a própria experiência do saltar, indissociável do que me cerca. Corpo, mente e ambiente tornando-se um só.”

Em seu corpo, uma corrente fina de sangue começa a circular por veias invisíveis. Sua mente, antes um rio agitado, agora começa a estabilizar-se, transformando-se em um lago sereno, límpido, transparente. Agora o traceur começa a perceber o que está oculto sob essas águas.

“E, portanto, será que realmente importa saltar ou não saltar? Não há pressa, não há cobranças em uma mente tranquila. Não há ninguém para eu me exibir, não há metas físicas para serem alcançadas. O próprio ato de vencer essa precisão é vazio de valor verdadeiro. Me tornar melhor exatamente em quê? E se eu tirar todas as tensões do meu corpo e não me importar com o saltar ou o não-saltar?”

O traceur fecha os olhos, e, em sua mente, traça todo o percurso do salto. Seus tornozelos começam a inclinarem-se, como um elástico pronto para lançar algo aos céus. As águas de sua mente finalmente cessam o movimento, e então uma energia invisível começa a atravessar cada partícula de seu corpo. E todo o seu corpo, unido, imagina o pilar à frente e sente cada molécula do ar que guia o salto. O sangue percorrendo cada tecido, os tendões esticando, o coração batendo; O traceur está consciente de tudo, até mesmo do ar do caminho à sua frente que aos poucos começa a transformar-se em parte de seu próprio corpo. Não há passado, nem futuro. Não há preocupações, medos, cobranças ou expectativas. Todo o potencial humano está manifestado nesse salto. A expressão máxima da vida, do movimento.

O traceur agacha-se, pendura-se e desce ao solo. Um sorriso se faz em sua face. Ele está satisfeito.